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domingo, 5 de junho de 2011

Pensão Alimentícia

Ensaio um sorriso
Pra tentar desmentir
Senhores o tempo
Insiste em urgir
Cadências insanas
Flamejam olhares
Senhores a noite
Insiste em seguir

Será que o tempo
Que passa
Que finda
Que triste desmaia
Sem culpa qualquer
Caiu de desgosto
Em ruas de elétrons
Em terras inférteis
Ou ciclos de mulher

Por onde andarás
Senhoria de meus cromossomos

A longas distâncias
Em sentenças vizinhas
Em sortes avulsas
Que não se podem ver

Suspeito que perto
Diante das notas
Meu cárcere imundo
Consiga vencer

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Falaê

Isturdia eu tavo cunversano cumamiga minha i ela mi falô qui tava cuma quemaçãozinha na boca istambo.

Pensei: só podi sê asnia. Tem qui cuidá disso. Vai qui esse negócio vira uma ursa nervosa...

E si num tratá podi até virá aquela duença.

Até pensei in fazê uma garrafada de trucussu pra ela, mais ela perferiu fazê uma simpatiazinha qui a mãe dela insinô.

Num tô quereno incentivá ninguém a fazê isso, não. Acho qui tem qui porcurá um benzedô dus bão. Aqueis qui cuida di arcas aberta, ispinhela caída, mau oiado e até cunstipação.

De carqué forma, minha amiga resorveu fazê a simpatia.

Diz qui tem qui pegá um poquinho di pó di café cum cabo di uma cuié, rezá treis pai nosso e puxá aquele pó cum força.

Mai é prá puxá pela boca. Diz qui tem uns povo por aí qui anda cherando tar di pó branco, mas também num sei pra quê qui serve. Deve di sê praquele negócio di selozite.

Eu num gosto nem di pensá nessas cosa. Essas porcariada toda qui os otro inventa por aí pode sê pirigoso. Sei lá si eu peço esse negócio pra selozite e mi dão istriquilina...

Deus qui mi livriguardi. Acho que a genti toma essas cosa i fica até meio gregui da cabeça.

Bom, eu só sei qui a genti qui é pobre e só faz memo pra cumê, num podi ficá si dando a essas frescurada di ficá muito duente, não.

E si ficá duenti tamém, toma uns banho quenti passa um poco di banha di galinha nus peito, um poco di vique vacorube nos nariz, tomá uns chá di puejo cum mentrusto, umas foia di saião e reza pra miorá.

Água benta tamém é pau puro pra curá duença.

É isso memo. Mais tem qui rezá.

Afinal das conta, Deus é pai num é paiaço.

sábado, 14 de maio de 2011

Textos em Falas e Causos

Falas e Causos é um blog literário.

Como o tema pobreza chamou a atenção de algumas pessoas, me pediram pra continuar falando e até me enviaram suas histórias. Então me apropriei dessas narrativas, com autorização da galera e, pra dar mais realidade, tenho escrito em primeira pessoa.

É isso.

Pobre, pobre de marré de si

Recebi mais pedidos pra falar das mazelas da pobreza. Então tá.

Minha família sempre foi pobre. Desde cedo conheci a Necessidade. Nossa casa era um pardieiro. Era de madeira. Entre uma tábua e outra, nas paredes, não havia mata-junta. É claro que pouca gente sabe o que é uma mata-junta, então vamos à ilustração mental: pense em duas tábuas, uma ao lado da outra; para cobrir a fenda entre elas, coloca-se uma ripinha ao longo de toda a fenda; essa ripa é a mata-junta. Não sabe o que é uma ripa? Ah! Aí é demais.

O fato é que, sem a mata-junta, qualquer ventinho passa pela fresta na parede. Agora pensa no sujeito dormindo numa noite fria e aquele vento entrando e soprando bem no focinho do infeliz. Acho que é por isso que sempre tive problema respiratório. Moleque franzino, subnutrido... cobertor de pobre sabe como é: cobertor bicicleta; se tampar a cabeça, fica pedalando a noite inteira, tentando cobrir o pé; o cobertor é sempre menor do que o dono.

Tinha noite que o vento era mais forte e chegava a assobiar quando passava pelos buracos da parede.

Como bom pobre, eu também era supersticioso e cheio de crenças absurdas. Se o vento assobiava, era saci. E quem disse que dormia novamente? Aí esgotava-se o estoque de pai nosso, ave maria, creio em deus pai, salve rainha, santo anjo...

Mas se você pensa que as frestas eram só na parede engana-se. No chão era um pouco pior. Como a casa era bem afastada do chão, dava pra ver as galinhas, que minha mãe criava, passeando lá embaixo. De vez em quando as bichas ferravam na briga e subia um poeirão danado. Mas o problema maior nem eram as galinhas. Era a tal da crendice.

Passei minha infância e parte da adolescência acreditando em lobisomem. E com essa casa de chão panorâmico, eu me cagava de medo de andar em casa depois de certa hora da noite. Tinha a certeza de que a qualquer momento um lobisomem iria passar sob meus pés, e meter as garras pelas frestas do chão. Parece meio louco, mas passei toda a infância ouvindo histórias desse tipo.

Hoje, homem feito, com algumas crenças a menos posso dizer que nnão acredito mais nessas coisas de saci, lobisomem e mula sem cabeça. Mas que existem, existem.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

No encalço da pobreza

Após a postagem "Pobre é o diabo...", de 30 de abril, recebi vários e-mails pedindo mais exemplos de situações engraçadas decorrentes do fato de ser pobre. Então toma:

Nunca tive uma bicicleta. Alguns amigos, até hoje, duvidam se sei andar... Mas eu sei. Aprendi com a bicicleta dos outros. Como a bicicleta, dos outros, normalmente é grande ou pequena demais para o seu tamanho, sempre fica meio desproporcional. Sem falar que o moleque é pequeno e, pra alcançar os dois pedais, tem que passar uma das pernas por dentro do quadro da maldita, ou seja, por dentro desse espaço maior.
Era a visão do inferno. Como é que se conseguia fazer aquilo?

Tinha também o fato de nunca ter roupa nova. Minhas roupas, por exemplo, eram sempre as que não cabiam mais no meu irmão, num tio dois anos mais velho, primos...

Percebam: pobre não troca de roupa; a roupa é que troca de pobre! Sapato então, nem se fala.

Além dos percalços no lazer e no vestuário, tinha também os da habitação.

Até meus vinte anos, moramos num barraco de madeira, que em época de chuva, pingava tanto dentro quanto fora de casa. Lembro-me dos baldes, panelas e canecas aqui e ali pra recolher a água das goteiras. Mas o legal é que a gente se divertia com isso. Era uma sinfonia.

Mas não parava por aí. Minha casa não tinha forro e, por isso, ficava um vão entre a parede e o telhado. Um dia entrou um gambá por essa abertura e causou o maior rebuliço.

Estávamos todos dormindo e, de repende, ouve-se o barulho de algo caindo na cozinha. Minha mãe desperta e cochicha com meu pai:

- Tem alguém aqui dentro.

Ao que meu pai responde:

- Não tem não.

- Tem sim. Tem alguém roubando nossa casa. Meu pai quase gargalhou:

- Roubando o quê? Não temos nada. Levantou-se, acendeu a luz e foi para a cozinha.

Era o gambá, ou sarué, como se diz por aqui.



Estava em cima do fogão, roendo um pernil que minha mãe havia preparado.

Meu pai se revoltou.

- Comeu meu pernil. Agora vou comer você.

E começou a correria dentro de casa. Meu pai com um porrete na mão, minha mãe gritando cuidado!, eu e meu irmão, sonolentos, sem entender nada e o bicho, fedendo, corria para a sala, voltava para a cozinha, tentou entrar no quarto da minha mãe mas, assustado com os gritos dela, correu desnorteado e levou uma paulada na cabeça.

Nisso a vizinhança já estava toda acordada e de longe já se podia sentir o fedor do bicho.

Logo amanheceu. Meu pai estripou o bicho e comeu o pernilzinho dele, conforme o prometido.


segunda-feira, 2 de maio de 2011

Suspiro (Poema inconsistente)

Dá pra dormir
Sonhar
As páginas vivas
Do tempo virar
Tentar
Mentir
A todos os povos
Tentar enganar

Dá pra fingir
Desflorescer
Nas ramas do vento
Chegar e ficar
Sondar
Aquietar
Manter esse enxame
Por perto a zunir

Dá pra acordar
arfar
Do pesadelo
Dá pra despertar
A suar
Saber
Que agora é tarde
Já deu pra errar

Deu pra Pecar
Curtir
Hosanas eufóricas
Dá pra entoar
Rezar
Clamar
Pedir perdão
E voltar a sorrir

sábado, 30 de abril de 2011

Pobre é o diabo, pois nem das graças de Deus é merecedor (D. Zefa)

Quando Deus no mundo andô
Duas cosa incontrô:
Homi bom
Muié má
Istera véia
Canto moiado
O pão sunegado

Com essas palavras, seguidas de um bocejo, e agitando em cruz três ramos de arruda, alecrim, manjericão ou sei lá o quê, Seu Manel me benzia de olhado, arcas abertas, espinhela caída, conjuntivite e tudo o que fosse moléstia de pobre.

É claro. Já viu pobre ter plano de saúde?

Quem resolve tudo é o benzedor ou a benzedeira. Se for caso de parto, a parteira. Na escola, a merendeira. A mãe arrumou um trabalho? Deve ser de lavadeira.

Aí depois melhora um pouco. Se torna arrumadeira, cozinheira...

Mas, voltando às moléstias da pobreza, essa mesma é um mal. Para o pobre, no entanto, é até estimulante. Ou ninguém nunca ouviu dizer que a necessidade é a mãe da invenção?

Quando eu era moleque, lata de óleo de soja (na época ainda não existia frasco de plástico) virava carrinho. Sandálias havaianas, que lá pelo início da década de 1980 era coisa só de pobre, se transformava em rodinhas para o tal carrinho.

Mochila então era artigo de luxo. O que rolava mesmo era o bom e velho saco de arroz Calafate.

Não tem borracha? Pega um conta-gotas e usa aquela praga pra apagar. Mancha mais do que tudo. A manha é não apertar muito o lápis. Aliás, quando o lápis estiver muito pequeno, nada de jogar fora. Ele fica grandão de novo se colocar uma extensão feita de taquara. Não sabe o que é taquara, né?...

Bom, como o assunto saiu da área da saúde e foi para a educação, vou arrematar com a melhor estratégia do pobre pra garantir que o uniforme não será trocado na hora da Educação Física: basta virar a barra da camisa e escrever o nome do lado avesso. Mas não é só pobre que faz isso não...

Outra hora conto mais das minhas misérias da infância. É pra morrer de rir.

Ah! Isso foi tudo verdade.