Quando Deus no mundo andô
Duas cosa incontrô:
Homi bom
Muié má
Istera véia
Canto moiado
O pão sunegado
Com essas palavras, seguidas de um bocejo, e agitando em cruz três ramos de arruda, alecrim, manjericão ou sei lá o quê, Seu Manel me benzia de olhado, arcas abertas, espinhela caída, conjuntivite e tudo o que fosse moléstia de pobre.
É claro. Já viu pobre ter plano de saúde?
Quem resolve tudo é o benzedor ou a benzedeira. Se for caso de parto, a parteira. Na escola, a merendeira. A mãe arrumou um trabalho? Deve ser de lavadeira.
Aí depois melhora um pouco. Se torna arrumadeira, cozinheira...
Mas, voltando às moléstias da pobreza, essa mesma é um mal. Para o pobre, no entanto, é até estimulante. Ou ninguém nunca ouviu dizer que a necessidade é a mãe da invenção?
Quando eu era moleque, lata de óleo de soja (na época ainda não existia frasco de plástico) virava carrinho. Sandálias havaianas, que lá pelo início da década de 1980 era coisa só de pobre, se transformava em rodinhas para o tal carrinho.
Mochila então era artigo de luxo. O que rolava mesmo era o bom e velho saco de arroz Calafate.
Não tem borracha? Pega um conta-gotas e usa aquela praga pra apagar. Mancha mais do que tudo. A manha é não apertar muito o lápis. Aliás, quando o lápis estiver muito pequeno, nada de jogar fora. Ele fica grandão de novo se colocar uma extensão feita de taquara. Não sabe o que é taquara, né?...
Não tem borracha? Pega um conta-gotas e usa aquela praga pra apagar. Mancha mais do que tudo. A manha é não apertar muito o lápis. Aliás, quando o lápis estiver muito pequeno, nada de jogar fora. Ele fica grandão de novo se colocar uma extensão feita de taquara. Não sabe o que é taquara, né?...
Bom, como o assunto saiu da área da saúde e foi para a educação, vou arrematar com a melhor estratégia do pobre pra garantir que o uniforme não será trocado na hora da Educação Física: basta virar a barra da camisa e escrever o nome do lado avesso. Mas não é só pobre que faz isso não...
Outra hora conto mais das minhas misérias da infância. É pra morrer de rir.
Ah! Isso foi tudo verdade.
Ah! Isso foi tudo verdade.