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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Pedido Atendido

Eu era bem pequeno, mas me lembro bem de um acontecimento que, por muito tempo, me tirou o sono.

Fazia frio. Era inverno em nossa pequena cidade. É curioso mas agora me dou conta de que naquela época tínhamos estações melhor demarcadas do que hoje em dia. Fazia frio no inverno, calor no verão, as flores nasciam na primavera e as folhas caiam no outono.

No final da rua, uma casinha de madeira seria o cenário desta história.

Antes de continuar, no entanto, faço questão de assegurar que isso não é um conto. Não é um causo. Isto aconteceu mesmo.

Joana (nome fictício, assim como os demais), mãe de vários meninos e meninas, trabalhava na colheita de café e deixava os filhos em casa. Os mais velhos ajudavam a cuidar dos mais novos. E os vizinhos, como em toda cidade de interior, onde todos se conhecem, de vez em quando também passavam o olho nas crianças.

Lá pelas cinco ou seis da tarde, Joana, que era separada do marido, chegou em casa, exausta, empoeirada, com a pele das mãos manchadas pelo café. Mal chegou e os meninos mais velhos saíram para brincar e aproveitar com os amigos os últimos momentos de luz do dia.

Completamente sem paciência para choro de criança, sem poder tomar um banho, pois já era hora de preparar a janta das criançass, Joana se aborrece com Sinval, o mais novo. Ainda muito pequeno para ficar pela rua, ficara no berço, chorando. O menino sentia fome e insistia para a mãe lhe preparar bolinhos de chuva. Como não fora atendido, passara a berrar e fazer pirraça. A mãe enfurecida esbraveja:

"Vá pro inferno, vá pro diabo que te carregue."

Misteriosamente, num movimento brusco, todas as panelas saltam de cima do fogão. A casa parece tremer. A criança chora, grita e, de repente, um silêncio denso paira no ar.

Assustada, Joana corre para ver seu menino. Nem sinal. Desesperada, começa a gritar e pedir por socorro.

Em poucos minutos, toda a vizinhança se amontoava em frente à casa e, entre lágrimas e gritos, Joana conta o que ocorrera.

Imediatamente Dona Gilda, que hoje já não vive entre nós, empunha a Bíblia e, como boa evangélica da Assembleia de Deus, começa a orar, clamar e pedir a Deus que tivesse misericórdia daquela família. Dona Gilda passa a falar uma língua desconhecida e, juntamente com um grupo de pessoas, sai  à procura da criança.

Mais no final da rua, havia um cafezal que cobria todo o topo do morro onde morávamos e terminava lá perto do rio. O grupo partiu em missão pelo cafezal.

Segundo alguns que estiveram na empreitada, podia-se ver pelo meio do mato, pares de pegadas enormes com pegadas pequeninas ao lado, como se alguém tivesse passado por ali de mãos dadas com alguma criança.

Com muita oração e fé, caminharam por algum tempo até alcançar as margens do rio e eis que ao longe se podia ouvir um chorinho contido. Seguiram o som daquele lamento e encontraram, em meio a espinhos, o menino Sinval assustado, trêmulo, sujo e todo ferido.

Ainda me arrepio ao contar essa história.

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