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quinta-feira, 14 de abril de 2011

Em plena rua

Às cinco da tarde, no portão de casa, Maria espera ansiosa pela volta do vendedor de sorvetes. É verão e o sol ainda nem pensa em se esconder.

Do outro lado da rua, de pé em frente à janela, Leonardo observa Maria.

Faz muito calor.

Ela, vestida com pouca roupa, típica moça desinibida das periferias, meio escandalosa até, prende o cabelo, amarra a camiseta com um nó apertado, acima do umbigo e abre um enorme sorriso de satisfação. Era o sorveteiro que voltava, apertando sua buzina e fazendo toda a vizinhança saber que os mais inusitados sabores cheios de delícia e frescor estavam passando bem em frente a suas casas.

Leonardo queria um sorvete, mas preferiu ficar ali, de pé, em frente à janela, observando Maria que, nesse momento, já se lambuzava de sorvete. Pela cor só podia ser de araçaúna. Leonardo debruçou na janela e parecia sentir também o gosto daquela mistura genial de gelo, açúcar, suco de fruta, espessante, casquinha , língua, lábios...

Maria faz movimentos sinuosos com todo o corpo. Insinua-se para Leonardo.

Ele, já sem camisa, exibindo uma magreza frágil e desconsertante, pula a janela, corre na direção de Maria, olhos fixos nos dela, escorrega não sei em quê e cai diante da moça.

Cheia de compaixão Maria ajuda o moço a se levantar e percebe que seu joelho está todo esfolado. Sem pensar mais do que uma vez ela se abaixa, sopra o ferimento como quem tentar mandar para longe a dor, ergue-se, toma em suas mãos a mão direita de Leonardo, coloca-a em seu peito, aproxima-se intimamente do rapaz e o beija.

Realizado e querendo mais que apenas um beijo, Leonardo a toma em seus braços magrelos, puxa-a para si, cheira seu pescoço e lambe uma gota de suor que escorre, lentamente.

Maria não diz uma só palavra. Afasta-se rapidamente de Leonardo, não sem antes estapear-lhe a face e entra em casa com uma violência assustadora.

Leonardo fica ali.

Depois vai embora sem entender nada.

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