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sábado, 14 de maio de 2011

Pobre, pobre de marré de si

Recebi mais pedidos pra falar das mazelas da pobreza. Então tá.

Minha família sempre foi pobre. Desde cedo conheci a Necessidade. Nossa casa era um pardieiro. Era de madeira. Entre uma tábua e outra, nas paredes, não havia mata-junta. É claro que pouca gente sabe o que é uma mata-junta, então vamos à ilustração mental: pense em duas tábuas, uma ao lado da outra; para cobrir a fenda entre elas, coloca-se uma ripinha ao longo de toda a fenda; essa ripa é a mata-junta. Não sabe o que é uma ripa? Ah! Aí é demais.

O fato é que, sem a mata-junta, qualquer ventinho passa pela fresta na parede. Agora pensa no sujeito dormindo numa noite fria e aquele vento entrando e soprando bem no focinho do infeliz. Acho que é por isso que sempre tive problema respiratório. Moleque franzino, subnutrido... cobertor de pobre sabe como é: cobertor bicicleta; se tampar a cabeça, fica pedalando a noite inteira, tentando cobrir o pé; o cobertor é sempre menor do que o dono.

Tinha noite que o vento era mais forte e chegava a assobiar quando passava pelos buracos da parede.

Como bom pobre, eu também era supersticioso e cheio de crenças absurdas. Se o vento assobiava, era saci. E quem disse que dormia novamente? Aí esgotava-se o estoque de pai nosso, ave maria, creio em deus pai, salve rainha, santo anjo...

Mas se você pensa que as frestas eram só na parede engana-se. No chão era um pouco pior. Como a casa era bem afastada do chão, dava pra ver as galinhas, que minha mãe criava, passeando lá embaixo. De vez em quando as bichas ferravam na briga e subia um poeirão danado. Mas o problema maior nem eram as galinhas. Era a tal da crendice.

Passei minha infância e parte da adolescência acreditando em lobisomem. E com essa casa de chão panorâmico, eu me cagava de medo de andar em casa depois de certa hora da noite. Tinha a certeza de que a qualquer momento um lobisomem iria passar sob meus pés, e meter as garras pelas frestas do chão. Parece meio louco, mas passei toda a infância ouvindo histórias desse tipo.

Hoje, homem feito, com algumas crenças a menos posso dizer que nnão acredito mais nessas coisas de saci, lobisomem e mula sem cabeça. Mas que existem, existem.

Um comentário:

  1. Amor...
    ADORO suas histórias, e se soubessem que ao vivo são melhores ainda vivia de gente aqui em casa.
    Por mais que isso ocupe seu tempo e que eu acabo tendo que dividir você com as histórias, tô louca pra ler as outras.
    Beijos

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