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sexta-feira, 6 de maio de 2011

No encalço da pobreza

Após a postagem "Pobre é o diabo...", de 30 de abril, recebi vários e-mails pedindo mais exemplos de situações engraçadas decorrentes do fato de ser pobre. Então toma:

Nunca tive uma bicicleta. Alguns amigos, até hoje, duvidam se sei andar... Mas eu sei. Aprendi com a bicicleta dos outros. Como a bicicleta, dos outros, normalmente é grande ou pequena demais para o seu tamanho, sempre fica meio desproporcional. Sem falar que o moleque é pequeno e, pra alcançar os dois pedais, tem que passar uma das pernas por dentro do quadro da maldita, ou seja, por dentro desse espaço maior.
Era a visão do inferno. Como é que se conseguia fazer aquilo?

Tinha também o fato de nunca ter roupa nova. Minhas roupas, por exemplo, eram sempre as que não cabiam mais no meu irmão, num tio dois anos mais velho, primos...

Percebam: pobre não troca de roupa; a roupa é que troca de pobre! Sapato então, nem se fala.

Além dos percalços no lazer e no vestuário, tinha também os da habitação.

Até meus vinte anos, moramos num barraco de madeira, que em época de chuva, pingava tanto dentro quanto fora de casa. Lembro-me dos baldes, panelas e canecas aqui e ali pra recolher a água das goteiras. Mas o legal é que a gente se divertia com isso. Era uma sinfonia.

Mas não parava por aí. Minha casa não tinha forro e, por isso, ficava um vão entre a parede e o telhado. Um dia entrou um gambá por essa abertura e causou o maior rebuliço.

Estávamos todos dormindo e, de repende, ouve-se o barulho de algo caindo na cozinha. Minha mãe desperta e cochicha com meu pai:

- Tem alguém aqui dentro.

Ao que meu pai responde:

- Não tem não.

- Tem sim. Tem alguém roubando nossa casa. Meu pai quase gargalhou:

- Roubando o quê? Não temos nada. Levantou-se, acendeu a luz e foi para a cozinha.

Era o gambá, ou sarué, como se diz por aqui.



Estava em cima do fogão, roendo um pernil que minha mãe havia preparado.

Meu pai se revoltou.

- Comeu meu pernil. Agora vou comer você.

E começou a correria dentro de casa. Meu pai com um porrete na mão, minha mãe gritando cuidado!, eu e meu irmão, sonolentos, sem entender nada e o bicho, fedendo, corria para a sala, voltava para a cozinha, tentou entrar no quarto da minha mãe mas, assustado com os gritos dela, correu desnorteado e levou uma paulada na cabeça.

Nisso a vizinhança já estava toda acordada e de longe já se podia sentir o fedor do bicho.

Logo amanheceu. Meu pai estripou o bicho e comeu o pernilzinho dele, conforme o prometido.


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